A história de uma confusa sombra

Não sei porque hoje encontro com tantas pessoas com o mesmo pensamento, achando que a felicidade está sempre morando na casa de um de seus vizinhos e nunca na sua.

Felicidade é descobrir o que somos e agradecer porque somos, minha sombra nunca me pediu para ter uma sombra, pois deixaria de ser o que é para ser o que sou.

 

Era uma vez uma sombra com um estranho desejo…

Certa tarde em um pomar, erguia-se uma grande e formosa árvore, projetando sua extensa sombra sobre o verde. Tal sombra, desconhecendo seu valor, sonhava em poder também ter uma sombra, mas para que isso acontecesse, precisaria ter um corpo, ser matéria, algo concreto e deixaria de ser sombra, negando o que é a si mesma.

Encontrando-se em constante dilema, achou por certo compartilhar o que sentia com seu criador de todos os dias, o Sr. Sol.

E assim lhe falou:

– Sinto-me desorientada, meu bom senhor, quanto a minha real utilidade aqui em baixo, tu me emprestas ao verde e à árvore, sem que eu faça parte verdadeiramente do verde ou da árvore. Por que não posso ser tão útil quanto a árvore que oferece doces frutos ou a macia e bela grama?

E respondeu o sol dizendo:

– Ai de ti confusa sombra, que se perde no caminho da ignorância e da ingratidão. Tu acompanhas a árvore desde que ela ainda era um despretensioso broto, e tão insignificante quanto tu te sentes agora, tu me chamas de criador, mas sem ela tu não existirias, e agora desejas tomar seu lugar?

Comece por envergonhar-se de seus sentimentos e agradeças o que és, pois dentre os frutos da árvore, tu és o único a permanecer com a passagem das estações, e quanto ao verde macio e belo, tu és a proteção para que eu não o desbote ou o queime com meus raios todo o tempo sobre ele.

E agora que sabes de teu valor , que és o fruto mais doce e contínuo da árvore e por tua causa o verde é belo e macio, nunca mais superestimes aos outros subestimando a si mesma e nem faça o contrário, pois o verdadeiro Criador de todos, criou também o equilíbrio de tudo, antes mesmo que essa ação ganhasse nome.

 

Adelino Moreira Martins

08 de Novembro de 1985.